entrar em modo automático é engraçado sem ter graça alguma.
antes do sucedido, do último suspiro, da última palavra, do último olhar, há um pensamento entranhado a tudo o que se faz, a tudo o que se planeia, há o não há volta a dar, o é melhor irem-se preparando, o nós já não podemos fazer nada. e depois o bombardear de planos adiados, o ensaio que querem marcar na Quinta, o café que se combinou, o jantar na noite de anos... nada a que nos seja permitido dizer sim, claro que vou! porque quando quase cometemos o terrível erro do dizer, o pensamento nos suga as palavras para o mesmo. talvez seja hoje. talvez seja amanhã. talvez seja esta semana.
é engraçado, e volto a dizê-lo, sem ter graça alguma, no que pensei quando estive com ele pela última vez. vivo. com as lágrimas a impedirem-me um campo de visão nítido, com a minha mão sobre a mão dele, deslizando devagar braço acima com a ponta os meus dedos. repetindo o processo até me ser possível fazê-lo.
meu querido, talvez seja a últma vez que te toco e te sinto quente.
e foi mesmo.
um dia depois reecontrei-o. agora frio. agora imóvel para a eternidade. agora apenas corpo, apenas carne gelada beijada por mim tantas vezes, enquanto as minhas lágrimas lhe caíam pelo rosto. e, daqui a uns meses, apenas pó. o que fica não é palpável. o que fica não são as suas faces beijadas por mim. o que fica é a memória. as gargalhadas. o saber que ele já cá não vai estar quando eu tirar um curso; já cá não vai estar quando eu me casar; já cá não vai estar para me dar os parabéns, quando eu tirar a carta de condução. já cá não vai estar para ver o meu primeiro emprego.
já cá não vai estar.
fernando pessoa disse que morrer é apenas não ser visto.
e eu acredito nisso.
mesmo que não acreditasse, fingiria o contrário.
morrer é só não ser visto. e naquela dia, como não me era possível beijar a sua alma... beijei o seu corpo.
sobre o modo automático de que falo no início... só sabe quem já o viveu.
deixar de sentir.
abraçar por abraçar.
beijar por beijar.
agradecer por agradecer.
dizer que sim, só porque sim.
já nem tão pouco ter forças para chorar.
não te vejo, mas sinto-te aqui. a mexer as orelhas, da forma delicioa que só tu sabias fazer.
meu avô,
meu querido avô.
AnaPaixao
5 ♥:
Enternecedor. *.*
Adorei o teu blog.
É lindo ^^
perfeito..
Ta lindo :O Nota-se perfeitamente a admiração que tinhas por ele. Força *
Como me identifico tanto com esse sentimento, e que saudades que tenho do meu avô (':
Beijinho querida!
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