A culpa é do teu perfume! As minhas mãos cheiram-me a ti. A minha roupa cheira-me a ti. O meu peito cheira-me a ti. Arre!, o teu cheiro está em toda a parte e não sabes como foi difícil ir-me embora!
Uma parede enorme e branca e vazia e amarga á minha frente. Perguntei-te se podia acender a televisão e deste-me um sim sussurrado. Devorei novelas enjoativas para me esquecer de ti mas não consegui, pudera, estavas ao meu lado e dormias num sono leve. Ouvia a tua respiração e sentia a tua perna em cima da minha. As chaves do quarto estavam em cima da mesa - Quarto 114, cama de casal e umas almofadas horríveis - a nossa roupa estava espalhada pelo chão, pela cadeira, pela mesa. A minha mala aguardava a fuga, ao lado das chaves, com tantos planos lá dentro. Todos eles falhados...falhou tudo!
Não gosto que a mesa de cabeceira seja mais baixa que a cama. Não gosto desta novela, nem desta televisão, nem destas paredes. Este quarto estava tão preenchido quando entramos, loucos, felizes, desejosos um do outro, e agora não. Agora está mais vazio que eu. Quero-me ir embora mas se voltar a olhar para ti não consigo. Não consigo fazer-te isso, ir-me embora, dizer-te adeus, e não mais voltar a estar contigo. Vieste de longe, numa Sexta-feira gelada e escura, para estar comigo. Só para estar comigo. Não consigo partir de ti e isto não faz sentido. Estás a prender-me a esta cama e nem sequer precisas de me agarrar. Os nossos sapatos ficaram desarrumados e eu estou sem rede. Preciso de ligar a alguém. Preciso de ajuda para sair daqui. Não sabes como gosto do teu sorriso, e esse teu aroma... Ainda o sinto!
- Ainda o sentes?
Sim, ainda o sinto!
Acho que agora já chega: Levantei-me da cama e tinha o pé dormente. Encontrei o meu casaco de cabedal em cima da tua blusa. Apanhei as calças do chão e agarrei nas botas.
- Vou-me embora! - Disse-te num tom de voz firme, sabias lá tu o quão frágil eu estava. Sabias lá tu a vontade assombrosa que tinha em sair dali.
Lançaste um riso sarcástico como resposta á minha afirmação. Parabéns bebé, acertaste em cheio, atingiste-me, mataste-me ali, naquele momento, com as botas ainda por calçar. Um riso sarcástico foi, sem dúvida, a melhor resposta que me podias ter dado. Foi inteligente da tua parte, devo confessar. Haverá forma mais desprezível de responder a alguém com uma gargalhada? Claro que não. Dois segundos, dois segundos apenas, foi o tempo que a tua resposta demorou, e foi mais fatal que qualquer diálogo de duas horas.
Depois disso partilhamos duas ou três frases sobre as chaves do quarto - Quero lá saber das chaves, estão em cima da mesa! - Disse-te. Querias por força que as colocasse em cima da cama, mas filho, achas que me ia dar ao trabalho? Já tinha calçado as botas e estava junto á porta. Fechei-a educadamente e, ups!, esqueci-me de me despedir. Desculpa lá, sim? Desculpa lá se não te desejei um resto de Boa Noite, a ti e ao teu aroma estonteante. Desculpa lá se não te deixei escrever o meu nome na lista. Desculpa lá, fofinho, se me estou a lixar para ti.
E ainda bem que me estou a lixar para ti,
ainda bem!
Ana Paixão

















