Tu já sabias que ela adorava as tardes de Segunda-feira, principalmente se estivesse a chover. Foi o caso.
Nunca percebi o porquê dela gostar tanto da chuva...
Passou umas lições de Inglês que tinha em atraso, após duas aulas em que faltou por não perceber nada daquilo, e foi até ao teu quarto buscar a manta castanha; depois sentou-se no sofá da sala e fixou o olhar na televisão. Publicidade enjoativa quase a fez adormecer.
Subitamente, algo a ergueu do sofá e a encaminhou até á cozinha. Não te consigo explicitar o que lhe aconteceu, só sei que quando deu por ela estava a comer tudo o que lhe aparecia á frente. Tudo lhe pareceu irresistivelmente delicioso, não conseguiu evitar. Tudo o que ela antigamente não conseguia comer porque não a atraía, porque a enjoava, chamou por ela naquele dia. Juro-te, mãe, a Ana daquela tarde não era eu. Não podia ser eu. O único elemento realmente meu era o corpo, era o físico. A alma não.
Era ela! Aquela que pode ser toda a gente menos eu.
Num curto espaço de tempo quase comeu os dedos... nem a própria sabia ser capaz de comer tanto! Desconheço o que lhe aconteceu, não estava em si. Eu não estava em mim. Comeu tanto e tanto que se arrependeu. O seu corpo estava satisfeito depois daquela loucura, mas o espírito não.
No final da sua triste atitude, sentou-se e observou a mesa desarrumada. Ainda a oiço a chorar. Ainda me lembro da merda do desespero que a abraçava. Sentiu um grande peso na consciência, e acredito que nunca se sentira assim antes! Porque fez ela isto se lhe faz mal? Não sei, mãe!
Abandonou a cozinha e deixou-a desarrumada, com todas as provas do crime visíveis, para que pudesses estar lúcida do seu pecado.
A caminho do quarto, do meu quarto, houve algo que a parou novamente. Era a mesma sensação que tivera na sala, quando estava quase adormecida. Acendeu a luz da casa de banho e viu o seu reflexo no espelho. Viu um ser feio, infeliz e arrependido. Viu-me a mim. Nessa altura eu tentei gritar-lhe, juro que tentei mãe, mas ela não me ouviu. Ela nunca me ouve.
As lágrimas escorriam-lhe pela cara incessantemente. Ouviu a tua voz nos seus ouvidos. O Cuidado com o que comes! e os níveis de açúcar nas suas veias petrificaram-na. Petrificaram-me mãe! Agarrou na escova de dentes e ajoelhou-se perante a sanita. Confesso que aqui já sabia o que se iría seguir, mas mesmo assim, fiquei atenta a observá-la. Reparei que ela hesitou durante uns minutos e pensou. Sentia-se mal, mas não de uma tristeza superficial. Era uma tristeza entranhada no corpo. Nunca saberás como é viver com isto. Sabes lá tu o que ela tem passado. Receio que também eu já não saiba o que ela tem passado! Quero esquecer-me dela. Estou farta dela sabes?
Por favor, não me perguntes como ela teve coragem, mas sim mãe, enfiou o objecto pela goela abaixo até vomitar tudo o que não devia ter comido. E eu já sabia que isto iría acontecer! Detesto-a por ter chegado a este ponto, e tenho impressão que também ela se detesta. Julgo que quase vomitou a alma naquela tarde, ajoelhada na casa de banho, e tu sem saber de nada. Tu sem saber de nada mãe! Ainda sinto a ansiedade da tua chegada. Com a sua mão direita apertava a escova de dentes com fervor, num pensamento involuntário de ser a tua mão que a apoiava naquele momento. Todo o silêncio da nossa casa ficou rendido, naquela tarde, ao som da sua dor.
Depois de remediado o seu pecado, levantou-se do chão, fraca e deprimida. Foi aqui que eu entrei. Foi aqui que eu voltei.
Estive sempre a olhar para ela: A outra Ana. A que não ri. A que não canta.
Fui ter com ela e tornamo-nos numa só. Doía-lhe a garganta; doía-lhe lá dentro; doía-lhe a tua chegada a casa; doía-lhe se percebesses o sucedido. Doía-lhe.
Doía-me!
Desculpa, mãe.
Ana Paixão