BLÁ BLÁ BLÁ

Aqueles dois...



Ela continua a dançar deitada e a pentear os seus cabelos com os dedos. Achas que ele não repara nela? Achas que ele, com as suas pernas entrelaçadas nas dela, não admira os seus olhos pequeninos, de quem acabou de acordar? Achas que aqueles dois já não ouvem a mesma música? O amor não precisa de ser eterno para ser verdadeiro, escreve o que te digo. Isto não foi uma história de um filme. Foi a história daqueles dois. Foi a historia de duas pessoas que andavam na rua em passo rápido e mesmo assim perderam o autocarro. Ela olhava discretamente para os vidros das montras, só para se ver. Mais uma vez. E outra. E outra. Penteava o cabelo. Ajeitava o casaco. E ele...ele tinha uma grande dor de cabeça. Não dormira bem. Não sonhara. O que é da vida se não sonharmos? É uma treta, acredita nisto. Foi a história daqueles dois, sabes. Fizeram amor em cima de Girassóis. Fizeram amor e perderam-se. Achas que não foi amor? Claro que foi, mas o amor também se esgota. Também se cansa. O amor daqueles dois, oh, o amor daqueles dois. O amor daqueles dois escreveu uma história, foi o que foi. A história de dois desconhecidos que perderam o mesmo autocarro. A história que mostra que, bolas!, é possível ter a nossa própria história. É possível! A história de um amor na paragem do autocarro, enquanto se ouvia o senhor de casaco castanho a vender jornais. A história daqueles dois. A nossa história, lembraste? A nossa história. A história de nós os dois...oh amor, a história de nós os dois.

Ana Paixão

02:51h


Eu acho um piadão a duas coisas: 
a primeira, é ao facto das pessoas não lerem os textos e comentarem com um "Está lindo *.*" só para obter resposta;
a segunda, é aquela moda de todos dizerem que não gostam de receber comentários.

Ana Paixão

18:54h


Sempre tive um péssimo jeito para fingir ter um coração de pedra. Ah, e tanto que gostava de ter um...mas não tenho. 
E sofro. E espero. E choro. E morro. E fico aqui. 
Eu e o meu coração de algodão: frágil; ansioso de ser duro; ansioso de ser rocha.


Ana Paixão

13:18h


Um dia, eu vou ter muitas histórias para te contar. Mas hoje não. 
Não me apetece, e se queres saber, eu não quero falar de mim.
Eu prefiro falar de nós.

Ana Paixão

13:09h


Cheiras a café e a tarde de Domingo.

Ana Paixão

17:04h



Uma chávena de café. Um casaco pousado na cadeira. Um aceno no meio da rua. Tudo no seu lugar, porque uma história assim o permitiu. As migalhas estão na mesa porque alguém assim as deixou, e eu vou escrever sobre isso. Vou escrever sobre um rapaz chamado Tomás, que tinha 6 anos e lanchou sozinho, numa tarde de Outono em que o tempo estava triste. Em que ele estava triste também. E vou contar que ele chorou, em segredo, nessa mesma tarde, enquanto trincava uma fatia de pão sem sabor, balançando as pernas, uma de cada vez, suspensas da cadeira. E depois, se a imaginação mo permitir, irei escrever ainda sobre a forma calma que ele usou para se levantar, e de como suspirou enquanto uma lágrima lhe percorria a bochecha corada e quente. E olha, se ainda me quiseres ler, vou-te contar como ele arrumou a cadeira, cuidadosamente, e voltou para o quarto, onde pôde observar as gotas frágeis da chuva a dançar na janela, umas contra as outras, juntando-se e perdendo o rumo logo a seguir. E aqui, aqui tu vais perceber que as migalhas daquele pão sem sabor ficaram lá, em cima da mesa, á espera de alguma coisa. De qualquer coisa. Porque ele, o Tomás, as deixou lá.


Ana Paixão

Desculpem lá!


Eu nunca vou ser médica, nem engenheira, nem advogada. Não simpatizo com as Ciências, desculpem lá! Desculpem lá se nunca irei descobrir a cura do cancro. Desculpem lá se adoro arte, música e teatro. Basicamente, adoro tudo o que "não leva a lado nenhum", não é? Desculpem lá, a sério! Sinto muito por não perceber nada de átomos. Sinto muito por não perceber nada de Química. Sinto muito. Se fosse outra pessoa que não eu, ter-vos-ia feito a vontade. Ter-vos-ia deixado felizes e contentes e iludidos com as vossas ideias... mas como não sou outra pessoa, descupem lá. Desculpem lá se, um dia destes, vos mostrar do que sou capaz. E olhem que eu tenho mais garra do que vocês todos juntos. Tenho sim. E os meus sonhos irrealistas metem os vossos objectivos para mim num canto. Esmagados!


Ana Paixão


Ontem não conseguia adormecer, mas depois li dois capítulos d'Os Maias e o problema resolveu-se.

Ana Paixão

Pai, volta pra mim!


Pai, desde que me lembro que trabalhas á noite, por isso todas as manhãs ando em pézinhos de lã pela casa para não te acordar. Adormeço com a tua voz aos meus ouvidos, entre castelos e princesas que me fazem adormecer. Nunca me importei de ficar sozinha, juro que não papá! Apesar dos meus seis anos, tu sabes que eu já sou uma senhora corajosa. Sou corajosa como tu! Não tenho medo do escuro e já não acredito em monstros no meu armário.
Mas ontem algo aconteceu. O relógio marcava as duas horas da manhã e eu acordei com um barulho vindo do corredor. Por momentos pensei ter sido um sonho, mas voltei a ouvir o mesmo barulho. Eras tu, pai, só podias ser tu! Uma felicidade gigante percorreu-me o corpo pela tua chegada a casa. Ergui-me da cama, eufórica, e acendi a luz. Não acredito, papá, que tinhas vindo mais cedo ter comigo. É bom acordar com o teu regresso, gosto tanto de ti pai! Vem contar-me a mesma história que contaste antes de ir embora. Vem dar-me o teu aconchego.
Calcei os sapatos de quarto - porque tu te zangas quando ando descalça - e abri a porta. Ia ter contigo, papá, e abraçar-te, e mimar-te. Chamei o teu nome e acendi a luz do corredor para te encontrar. Não te vi em parte alguma. Voltei a chamar por ti: Onde estás? Porque vieste mais cedo? - mas tu nada respondeste. Anda ter comigo papá. Vais fazer uma careta por me ver acordada a esta hora, mas eu não me importo.
Foi então que vi a luz da cozinha acesa. És tão previsível, sempre com esse ratinho na barriga. Vou ter contigo, meu protector, e vamos beber leite e comer biscoitos antes de adormecer novamente. Percorri o corredor em passos saltitantes e abri a porta... mas não te vi. Não vi o teu cabelo loiro, nem o teu sorriso acolhedor, nem o teu olhar meigo. Não vi nada de ti. Vi apenas um homem. Um homem desconhecido. Um homem mais alto que tu, e mais frio que tu, e sem o teu sorriso. Tremo. Esqueço-me de respirar. Pai, estou com medo! Afinal não saíste mais cedo do teu emprego? Já não vamos sorrir nem comer biscoitos? Oh pai, ajuda-me! Ajuda-me e volta para casa. Volta para mim, e convence-me de que sou uma senhora corajosa como julgava ser!
O homem está á minha frente e o nosso olhar ficou preso um no outro. Sinto muita raiva aqui. Sinto muito nojo, e muita maldade, e muito medo. Onde estás? Não sentes que preciso de ti? Nos filmes os pais sentem sempre isso, e depois voltam para casa na hora certa. Acho que esta é a hora certa. Protege-me pai!  Tira-me daqui, porque o homem com raiva nos olhos está a vir em direcção a mim.


Ana Paixão

fuck that


Tu não morreste mesmo, pois não?


Ana Paixão

Luto


Luto. Estou de luto. Estou de luto e já não me sinto. Já não consigo falar. Já não consigo mover-me. Já não consigo pensar. Estou de luto. Estou de luto e perdi as forças para chorar. Perdi as forças para dar abraços. Para receber beijos. Perdi as forças para dizer que está tudo bem. Não está nada bem, nada!
Nunca um texto por mim escrito foi mais sentido que este. Foi preciso partires para descobrir que, afinal, é possível não ter força para abrir os olhos. Estou de luto. Merda!, estou de luto. O ano acaba e uma parte de mim acaba com ele. Não vou chorar mais. Não vou pensar mais. Não me vou mexer mais. Vou apenas ficar aqui. Eu e o meu luto, abraçados num silêncio triste.
Isto é surreal! É surreal o facto de teres partido. É surreal a ideia de não mais te ouvir. De não mais te tocar. De não mais te sorrir.
Não vou perguntar porquê a ti. Hoje apercebi-me que é uma pergunta ridícula. Ninguém me sabe responder. Ninguém sabe sequer o que fazer.
Deixem-me! Deixem-me ficar aqui, sozinha com o meu luto.
Será possível acreditar em Deus? Será que ainda existem pessoas com essa crença ridícula?
Venham a minha casa. Eu abro-vos a minha porta e mostro-vos a merda de Deus que por aqui passou. Mostro-vos a merda de dor que por aqui nos envolve. O Deus que conheci era justo. E isto não é justo. Não é justo! É um crime, mataram-te a ti e a mim! Quero lá saber da fé. Quero lá saber das águas com açúcar, dos chás e das palavras bonitas. Quero lá saber deste texto.


Ana Paixão

Vamos fumar!


Vamos fumar! Fumar até não nos sentirmos. Fumar até as pernas tremeram. Até os braços tremerem. Até o corpo inteiro tremer. Até a alma tremer! Vamos fumar até não suportamos o peso dos olhos. Até não conseguirmos falar. Até não nos conseguirmos lembrar da vida que nos espera lá dentro...e eu não quero voltar lá para dentro! Vamos fumar até o estômago devolver tudo o que comemos. Até termos a boca seca, tão seca como a vida. Tão seca como eu. Vamos fumar, meu irmão, e esquecer este assunto. Não quero mais falar sobre isto e já não gosto de textos politicamente correctos. Quero ficar aqui, e mostrar-te o meu lado mais negro. Mostrar-te as minhas imperfeições. Mostrar-te a parte insensível e vingativa...se é que existe alguma parte insensível e vingativa. Caso não exista, gira isso e vamos fumar. Vamos lá! Vamos fumar e escrever textos feios. Vamos fumar e esquecer-nos de nós. Sim, esquecer-nos de nós. Vamos esquecer-nos de nós, vamos lá!




Ana Paixão

Eu tenho tanta sede de viver... que, às vezes, dá mau resultado!


Ana Paixão


Sempre gostei de perceber o sentido das coisas que não têm sentido nenhum.


Ana Paixão

Deixa-me respirar!




Sinto-me sufocada! 
Vou-me embora para longe das tuas perguntas idiotas. Para longe das tuas regras ridículas. Vou-me embora, já tenho a mala feita. Podes ficar cá tu com as tuas merdas. Sim, com as tuas merdas! Dizer palavrões é feio e até essa conversa me sufoca. 
Deixa-me respirar. 
Deixa-me respirar porra! 
Não deve ser assim tão difícil perguntares-me como correu o dia, em vez de me pedires a lista detalhada de todas as merda que comi. Não deve ser assim tão difícil falares de outros assuntos comigo, em vez de voltares a repetir a centena de coisas que me fazem mal. Já te mentalizavas que eu percebo disto melhor que tu, não? Gostava que me percebesses, a sério que gostava, mas não dá. Já tens a cabeça limitada no que toca a conversas demasiado longas comigo. Já tens as ideias petrificadas. 
Deixa-me respirar! 
Vou devorar todo o açúcar que conseguir, para explodir á tua frente. Pode ser que aí te arrependas de não falar comigo sobre MIM! E depois do meu corpo ficar saturado e despedaçado, vou repetir tudo outra vez, e outra, e outra, para que percebas que a tua conversa estúpida não muda nada. Tu não mudas nada, ainda não percebeste? 
Deixa-me respirar, por favor!  
Fiquei de tal forma saturada de te ouvir, que agora já nem te oiço. É triste, claro que é triste. Mas estou tão farta das tuas palavras. Como é que ainda não percebeste que estou farta de te ouvir? 
Deixa-me respirar, porque assim eu vou sufocar. 
Deixa-me respirar! 
Se falar sobre outros assuntos for muito complicado, cala-te. A tua conversa não muda nada. Até já tenho medo de falar contigo. A tua protecção excessiva é ridícula. Só me sufoca. Só me faz mal. 
Deixa-me respirar se não me queres perder.
Deixa-me respirar!


Ana Paixão

Lost


O frio entrou pelo meu decote e fiquei com pele de galinha, por isso coloquei o cachecol cor de cereja que me ofereceste. Hoje não vi o sol e sorri poucas vezes, mas o dia não correu mal: a mesa do bar foi a mesma, o pequeno almoço foi o mesmo e a companhia foi a mesma. Talvez o problema seja esse. É sempre a mesma ausência, a mesma dor, a mesma crença. É sempre a mesma espera de ti. A mesma espera de mim, de mim!
Onde ando? Perdi-me e nunca mais me encontrei!
Sabes de mim? Eu cá não sei, não sei e envolvi o meu pescoço em cor de cereja para que alegrasses o meu dia.
Não te agradeço porque são quase cinco da tarde e tu prometeste vir ter comigo. Vamos beber chá e conversar até nos esquecermos de nós; depois eu vou-te beijar o rosto e vou admirar o teu jeito desastrado de andar. Vou admirar-te, e vou esperar que não te percas como eu.
Não te percas, peço-te, porque é triste andar perdido. É muito triste.
E eu bem sei!


Ana Paixão

Hoje é Domingo



Hoje é Domingo e não vou mentir. Não me peçam para mentir. Hoje é Domingo e não vou sorrir, nem contar piadas, nem dançar. Nem vou cantar. Nem vou sair daqui. Deixem-me estar assim porque hoje é Domingo. É Domingo e não me apetece fingir que está tudo bem. Não me apetece enganar o mundo hoje. Hoje não. Hoje é Domingo. Hoje é Domingo e quero ser autêntica. Quero sentir a dor que vem ao meu encontro, todos os Domingos. E sofrer sozinha, aqui. E lamentar-me. E não mentir. Não mentir ao dizer que está tudo bem quando não está. Não está tudo bem. Mas é só hoje, porque é Domingo. É só hoje, juro que é só hoje. Eu prometo voltar a mim amanhã. Prometo vestir-me e colocar perfume e rodopiar com todos vocês. E dar-vos uma gargalhada pela manhã. E envolver o meu corpo numa dança. Mas hoje não consigo.
Hoje não.
Porque hoje é Domingo.


Ana Paixão

Não sabes como foi difícil ir-me embora!



A culpa é do teu perfume! As minhas mãos cheiram-me a ti. A minha roupa cheira-me a ti. O meu peito cheira-me a ti. Arre!, o teu cheiro está em toda a parte e não sabes como foi difícil ir-me embora!

Uma parede enorme e branca e vazia e amarga á minha frente. Perguntei-te se podia acender a televisão e deste-me um sim sussurrado. Devorei novelas enjoativas para me esquecer de ti mas não consegui, pudera, estavas ao meu lado e dormias num sono leve. Ouvia a tua respiração e sentia a tua perna em cima da minha. As chaves do quarto estavam em cima da mesa - Quarto 114, cama de casal e umas almofadas horríveis - a nossa roupa estava espalhada pelo chão, pela cadeira, pela mesa. A minha mala aguardava a fuga, ao lado das chaves, com tantos planos lá dentro. Todos eles falhados...falhou tudo!
Não gosto que a mesa de cabeceira seja mais baixa que a cama. Não gosto desta novela, nem desta televisão, nem destas paredes. Este quarto estava tão preenchido quando entramos, loucos, felizes, desejosos um do outro, e agora não. Agora está mais vazio que eu. Quero-me ir embora mas se voltar a olhar para ti não consigo. Não consigo fazer-te isso, ir-me embora, dizer-te adeus, e não mais voltar a estar contigo. Vieste de longe, numa Sexta-feira gelada e escura, para estar comigo. Só para estar comigo. Não consigo partir de ti e isto não faz sentido. Estás a prender-me a esta cama e nem sequer precisas de me agarrar. Os nossos sapatos ficaram desarrumados e eu estou sem rede. Preciso de ligar a alguém. Preciso de ajuda para sair daqui. Não sabes como gosto do teu sorriso, e esse teu aroma... Ainda o sinto!
- Ainda o sentes?
Sim, ainda o sinto!
Acho que agora já chega: Levantei-me da cama e tinha o pé dormente. Encontrei o meu casaco de cabedal em cima da tua blusa. Apanhei as calças do chão e agarrei nas botas.
- Vou-me embora! - Disse-te num tom de voz firme, sabias lá tu o quão frágil eu estava. Sabias lá tu a vontade assombrosa que tinha em sair dali.
Lançaste um riso sarcástico como resposta á minha afirmação. Parabéns bebé, acertaste em cheio, atingiste-me, mataste-me ali, naquele momento, com as botas ainda por calçar. Um riso sarcástico foi, sem dúvida, a melhor resposta que me podias ter dado. Foi inteligente da tua parte, devo confessar. Haverá forma mais desprezível de responder a alguém com uma gargalhada? Claro que não. Dois segundos, dois segundos apenas, foi o tempo que a tua resposta demorou, e foi mais fatal que qualquer diálogo de duas horas.
Depois disso partilhamos duas ou três frases sobre as chaves do quarto - Quero lá saber das chaves, estão em cima da mesa! - Disse-te. Querias por força que as colocasse em cima da cama, mas filho, achas que me ia dar ao trabalho? Já tinha calçado as botas e estava junto á porta. Fechei-a educadamente e, ups!, esqueci-me de me despedir. Desculpa lá, sim? Desculpa lá se não te desejei um resto de Boa Noite, a ti e ao teu aroma estonteante. Desculpa lá se não te deixei escrever o meu nome na lista. Desculpa lá, fofinho, se me estou a lixar para ti.
E ainda bem que me estou a lixar para ti,
ainda bem!

Ana Paixão

Desculpa, mãe!





Tu já sabias que ela adorava as tardes de Segunda-feira, principalmente se estivesse a chover. Foi o caso.
Nunca percebi o porquê dela gostar tanto da chuva...
Passou umas lições de Inglês que tinha em atraso, após duas aulas em que faltou por não perceber nada daquilo, e foi até ao teu quarto buscar a manta castanha; depois sentou-se no sofá da sala e fixou o olhar na televisão. Publicidade enjoativa quase a fez adormecer.
Subitamente, algo a ergueu do sofá e a encaminhou até á cozinha. Não te consigo explicitar o que lhe aconteceu, só sei que quando deu por ela estava a comer tudo o que lhe aparecia á frente. Tudo lhe pareceu irresistivelmente delicioso, não conseguiu evitar. Tudo o que ela antigamente não conseguia comer porque não a atraía, porque a enjoava, chamou por ela naquele dia. Juro-te, mãe, a Ana daquela tarde não era eu. Não podia ser eu. O único elemento realmente meu era o corpo, era o físico. A alma não.
Era ela! Aquela que pode ser toda a gente menos eu.
Num curto espaço de tempo quase comeu os dedos... nem a própria sabia ser capaz de comer tanto! Desconheço o que lhe aconteceu, não estava em si. Eu não estava em mim. Comeu tanto e tanto que se arrependeu. O seu corpo estava satisfeito depois daquela loucura, mas o espírito não.
No final da sua triste atitude, sentou-se e observou a mesa desarrumada. Ainda a oiço a chorar. Ainda me lembro da merda do desespero que a abraçava. Sentiu um grande peso na consciência, e acredito que nunca se sentira assim antes! Porque fez ela isto se lhe faz mal? Não sei, mãe!
Abandonou a cozinha e deixou-a desarrumada, com todas as provas do crime visíveis, para que pudesses estar lúcida do seu pecado.
A caminho do quarto, do meu quarto, houve algo que a parou novamente. Era a mesma sensação que tivera na sala, quando estava quase adormecida. Acendeu a luz da casa de banho e viu o seu reflexo no espelho. Viu um ser feio, infeliz e arrependido. Viu-me a mim. Nessa altura eu tentei gritar-lhe, juro que tentei mãe, mas ela não me ouviu. Ela nunca me ouve.
As lágrimas escorriam-lhe pela cara incessantemente. Ouviu a tua voz nos seus ouvidos. O Cuidado com o que comes! e os níveis de açúcar nas suas veias petrificaram-na. Petrificaram-me mãe! Agarrou na escova de dentes e ajoelhou-se perante a sanita. Confesso que aqui já sabia o que se iría seguir, mas mesmo assim, fiquei atenta a observá-la. Reparei que ela hesitou durante uns minutos e pensou. Sentia-se mal, mas não de uma tristeza superficial. Era uma tristeza entranhada no corpo. Nunca saberás como é viver com isto. Sabes lá tu o que ela tem passado. Receio que também eu já não saiba o que ela tem passado! Quero esquecer-me dela. Estou farta dela sabes?
Por favor, não me perguntes como ela teve coragem, mas sim mãe, enfiou o objecto pela goela abaixo até vomitar tudo o que não devia ter comido. E eu já sabia que isto iría acontecer! Detesto-a por ter chegado a este ponto, e tenho impressão que também ela se detesta. Julgo que quase vomitou a alma naquela tarde, ajoelhada na casa de banho, e tu sem saber de nada. Tu sem saber de nada mãe! Ainda sinto a ansiedade da tua chegada. Com a sua mão direita apertava a escova de dentes com fervor, num pensamento involuntário de ser a tua mão que a apoiava naquele momento. Todo o silêncio da nossa casa ficou rendido, naquela tarde, ao som da sua dor.
Depois de remediado o seu pecado, levantou-se do chão, fraca e deprimida. Foi aqui que eu entrei. Foi aqui que eu voltei.
Estive sempre a olhar para ela: A outra Ana. A que não ri. A que não canta.
Fui ter com ela e tornamo-nos numa só. Doía-lhe a garganta; doía-lhe lá dentro; doía-lhe a tua chegada a casa; doía-lhe se percebesses o sucedido. Doía-lhe.

Doía-me!
Desculpa, mãe.



Ana Paixão

Cor de mel

Hoje reparei que ela traz o casaco cor de mel que eu lhe ofereci à dois anos. Ainda me lembro do dia em que ela o recebeu, sempre com aquele sorriso fantástico nos lábios, mexendo o cabelo de um lado para o outro.
-Adoro-o! - Disse-me, com o casaco numa mão e um copo de vodka preta noutra.
Nessa noite ela bebeu muito. Lembro-me que havia algo para festejar, tirando o facto dela fazer anos, mas não me lembro o quê. Se querem saber, à dois anos passavamos a vida a festejar. À dois anos muita coisa era diferente. Lembro-me da ver cambalear na minha direcção, debitando frases sem sentido e rindo-se como uma perdida. Naquela sala iniciamos a celebração dos seus 17 anos. Nós, o casaco cor de mel e muita vodka preta para o corpo dela. Lembro-me da rapidez estonteante com que bebeu as garrafas cuidadosamente compradas e escondidas dos seus pais. Acho que nunca a tinha visto tão bêbada em toda a vida, ainda era uma da manhã já ela estava deitada naquele sofá castanho, horrivel, com a cara pálida e o estômago já vazio. Vomitou tanto naquela noite que quase pensei que iría desmaiar no chão da casa de banho. Temi. Por momentos arrependi-me da ter deixado beber tanto.
No dia seguinte ela sentia-se doente e tresandava a alcool. Chegava a ser doloroso estar perto dela e vê-la naquele estado. Preferia vê-la bêbada que doente. Ou melhor, preferia vê-la antes de ter aberto as garrafas.
Levantei-a do sofá e ajudei-a a tomar banho. Mal se aguentava de pé e o esforço veio todo para cima de mim, que suportava o corpo dela e o bafo a alcool. Os seus lábios ainda estavam pretos da bebida. Reparei que ela sentia muita dificuldade em falar, as palavras não saíam bem. Estaria ainda sob o efeito do alcool? Começava a ficar preocupada.
Após o banho, vesti-lhe um pijama todo branco que estava amarrotado em cima da poltrona e deitei-a. Naquele dia não fui a casa e fiquei com ela. Enquanto ela dormia no quarto, eu fiquei a ver televisão na salinha, sempre com uma nuvem cinzenta sobre a minha cabeça. Ao final da tarde ela acordou e dizia sentir-se melhor. Agradeceu-me e pediu desculpas pelo exagero na vodka. Claro que a perdoei. Eu sempre a perdoei em tudo, em tudo!
Depois de dois dedos de conversa ela agarrou no casaco que lhe ofereci na noite anterior e vestiu-o, por cima do pijama branco.
E hoje ela traz o casaco cor de mel novamente. O mesmo casaco daquela noite, em que cuidei dela.
Eu sempre cuidei dela.
E que bem que lhe fica o casaco cor de mel.

Ana Paixão