Hoje reparei que ela traz o casaco cor de mel que eu lhe ofereci à dois anos. Ainda me lembro do dia em que ela o recebeu, sempre com aquele sorriso fantástico nos lábios, mexendo o cabelo de um lado para o outro.
-Adoro-o! - Disse-me, com o casaco numa mão e um copo de vodka preta noutra.
Nessa noite ela bebeu muito. Lembro-me que havia algo para festejar, tirando o facto dela fazer anos, mas não me lembro o quê. Se querem saber, à dois anos passavamos a vida a festejar. À dois anos muita coisa era diferente. Lembro-me da ver cambalear na minha direcção, debitando frases sem sentido e rindo-se como uma perdida. Naquela sala iniciamos a celebração dos seus 17 anos. Nós, o casaco cor de mel e muita vodka preta para o corpo dela. Lembro-me da rapidez estonteante com que bebeu as garrafas cuidadosamente compradas e escondidas dos seus pais. Acho que nunca a tinha visto tão bêbada em toda a vida, ainda era uma da manhã já ela estava deitada naquele sofá castanho, horrivel, com a cara pálida e o estômago já vazio. Vomitou tanto naquela noite que quase pensei que iría desmaiar no chão da casa de banho. Temi. Por momentos arrependi-me da ter deixado beber tanto.
No dia seguinte ela sentia-se doente e tresandava a alcool. Chegava a ser doloroso estar perto dela e vê-la naquele estado. Preferia vê-la bêbada que doente. Ou melhor, preferia vê-la antes de ter aberto as garrafas.
Levantei-a do sofá e ajudei-a a tomar banho. Mal se aguentava de pé e o esforço veio todo para cima de mim, que suportava o corpo dela e o bafo a alcool. Os seus lábios ainda estavam pretos da bebida. Reparei que ela sentia muita dificuldade em falar, as palavras não saíam bem. Estaria ainda sob o efeito do alcool? Começava a ficar preocupada.
Após o banho, vesti-lhe um pijama todo branco que estava amarrotado em cima da poltrona e deitei-a. Naquele dia não fui a casa e fiquei com ela. Enquanto ela dormia no quarto, eu fiquei a ver televisão na salinha, sempre com uma nuvem cinzenta sobre a minha cabeça. Ao final da tarde ela acordou e dizia sentir-se melhor. Agradeceu-me e pediu desculpas pelo exagero na vodka. Claro que a perdoei. Eu sempre a perdoei em tudo, em tudo!
Depois de dois dedos de conversa ela agarrou no casaco que lhe ofereci na noite anterior e vestiu-o, por cima do pijama branco.
E hoje ela traz o casaco cor de mel novamente. O mesmo casaco daquela noite, em que cuidei dela.
Eu sempre cuidei dela.
E que bem que lhe fica o casaco cor de mel.
O blog não é um diário
Sinto o que escrevo, sem dúvida, mas nem sempre escrevo o que sinto.
Invento, imagino e partilho. É aqui que está a piada da escrita.
Ser o que não sou e estar onde não estou.
Aqui escrevo sobre o que quiser.
As pessoas identificam-se com os textos tal como eu.
Não me conhecem, eu não as conheço, mas lêem-me.
E gostam.
Escrever o que se sente? Qualquer um consegue.
Mas saber criar histórias que percebam as pessoas, não.
Criar ambientes onde nunca se esteve, não.
Exprimir sentimentos que não se sentem, não.
O crepúsculo teve muito sucesso, mas olha:
os vampiros não existem!
Ana Paixão
Ana Paixão
Quase
Neste quarto mais nada resta tirando o nosso silêncio e o barulho da chuva a cair lá fora. Mais nada resta. Os nossos corpos estão colados um no outro e a sua forma quase se encaixa na perfeição. Quase. O vento faz-se ouvir lá fora, violento e indestrutível, e deixou forjados os planos que tínhamos imaginado. Hoje vamos apenas ficar aqui, neste quarto, nesta cama, a ouvir a chuva lá fora. Quase apaixonados. Quase perdidos nos braços um do outro.
Gosto de ouvir a tua respiração ao meu ouvido e acho que ficava aqui contigo, não para sempre, para sempre é demasiado tempo, mas para quase sempre. Sim...ficar contigo para quase sempre e sermos felizes para quase sempre. Parece-me bem.
Olha, sabes que mais? Bendita seja a chuva que nos arruinou os planos. Estar neste vazio de quarto contigo quase me preenche. Quase. Fazes-me bem. Acho que, a partir de hoje, quase passei a gostar destes dias chuvosos. Quase que te beijo, quase que te toco, quase que te quero. Mas não quase que te amo. Nestas coisas não há quases, e eu ia jurar que amor é mais que isto. É quase perderes tudo o que tens, por mim. Ia jurar que amor é mais que esta cama e mais que esse braço que me envolve agora.
Quase que ficava aqui a fixar os meus olhos nos teus, mas desculpa, amor, eu tenho que viver. Às vezes quase me esqueço de viver. Será que amor é mais que isto?
Quase que sim.
E pensando bem, eu quase que te amo. A ti, e ao barulho delicioso da chuva a cair lá fora.
Esqueces-te de ti
Mas depois, algo de mágico acontece.
Sais detrás daquela cortina preta e entras em cena. Ao olhares em frente apenas vês os vultos das pessoas que te olham e um grande brilho de luzes contra a tua cara.
É nessa altura que acontece a melhor coisa que o teatro te dá.
É nessa altura que te esqueces de ti.
Ana Paixão
Às seis da tarde

Ela chegou a casa completamente esgotada, com gotas de chuva a escorrer roupa abaixo que deixavam um rasto molhado pelo chão. Deixou os sapatos na entrada e tirou a roupa, peça a peça, lentamente, até ficar despida, totalmente despida. Depois prendeu o seu cabelo encharcado num elástico e ligou a música. Um jazz envolveu aquela sala e envolveu-lhe o corpo em movimentos descontraídos. Caminhou numa dança sensual até ao mini-bar que se encontrava na sala e que apenas era usado em ocasiões especiais, quando a casa se enchia de visitas. Mas hoje o dia era especial e nem sequer eram precisas visitas. Estranho. Só ela se encontrava entre aquelas paredes, ela e um jazz que lhe embalava o espírito. Não foi preciso um copo nem as típicas pedras de gelo: A sua mão direita agarrou a garrafa com fervor e levou-lhe o veneno à boca. Uma careta segui-se de imediato, mas logo desapareceu e deu lugar a mais um gole, e mais um, e mais um... Um calor subia-lhe corpo acima e a memória de um dia péssimo fazia-a rir. Riu muito ela e, quase num ápice, a garrafa ficou vazia. Então abriu outra e bebeu-a com o mesmo gosto da primeira.
As músicas iam passando e ela ia dançando pela sala. Nua, bêbada e infeliz, depois de um dia horrível em que tudo parece ter sido estrategicamente estudado para nada lhe correr bem. As horas tornaram-se pesadas, entre as gargalhadas dela e um candeeiro acidentalmente partido no chão. Outra garrafa que ficou vazia e o sofá que amparou o seu corpo morto e esgotado.
O cd tinha chegado ao fim.
Ana Paixão
Estrada

Nesta estrada louca a que chamam vida eu caminho a passos largos. Se decido ir em frente, vou, mas apenas de cabeça erguida. Quando a esperança me foge entre os dedos e me sinto desiludida, paro este meu corpo, tantas vezes cansado e castigado, e sento-me na berma da estrada. Aí eu provo o injusto e salgado sabor das lágrimas, revolto-me, sinto saudades, vingo-me, odeio-me e alivio este pesar de dor. Somente quando o sorriso volta, volta também a doce brisa da esperança. Aí eu recomponho-me, sorrio, levanto-me. Aí eu amo-me e volto novamente ao meu caminho. Aí eu percebo que temos que saber recuar um passo para avançar dois. Este caminho é difícil e eu só consigo estar aqui quando me sinto indestrutível e confiante. Eu sei parar para chorar e sei quando estou fraca, mas quando eu quero ir em frente...quando eu quero ir em frente não deixo que ninguém me pare.
Ana Paixão
Alucinação

Ele encontrara um refúgio. Não o melhor, é certo, mas naquelas 5 horas conseguia esquecer-se do que era. Esquecia-se da realidade lógica e entrava num mundo à parte, com vultos, chamas e bruxas. Tudo tão nítido e real mesmo à frente dos seus olhos. O coração a bater de forma descontrolada, uma vontade de rir incontrolável e milhões de cores em tudo o que via. Gente morta, palhaços, cobras verdes e monstros, muitos monstros. Um êxtase esfuziante a correr-lhe nas veias, uma adrenalina em estado puro a cobrir cada músculo e tendão. As batidas hipnotizantes de um trance no ar, os pés a fugirem do chão, um cheiro a droga maior que sei lá o quê, e ele, no seu refúgio bonito com coisinhas à roda, com o próprio corpo à roda. Cinco horas em que deixou de ser ele, sa foda, esta vida não vale a ponta de um corno. Deixem-no acreditar em monstros durante cinco horas, com a droga a correr-lhe no sangue numa corrida incansável.
Não é o melhor refúgio, mas é o refúgio dele, e vocês sabem lá como a vida vos consegue pontapear a cara. Ele quer que os teus amores falhados e as tuas dúvidas existenciais se lixem, não o julgues se percebes zero da vida. Betos mimados fumam porque é engraçado e pessoas como ele fumam por desespero.
Eu acho que há refúgios bem melhores,
mas não o julgo.
mas não o julgo.
Ana Paixão
Ela chegou
Ela chegou e sorriu. Tirou o casaco e passou-o aos amigos sem a mínima preocupação do lugar onde o deixavam. Caminhou apertada entre centenas de pessoas e chegou onde queria: Ela gosta de olhar para o DJ enquanto dança. Ela chegou e estava feliz por isso. Tirou o elástico e deixou as ondas do seu cabelo dançarem com ela. Sentiu o ritmo apaixonante da música a entranhar-se no corpo. Ficou assim, seduzida pelo momento de, finalmente, poder dançar. Seduzida pela leve sensualidade da música. Seduzida pela noite. Seduzida.
Ela chegou. Primeiro um fechar de olhos, depois um mexer suave do corpo. Cruzou um olhar cúmplice com os amigos que também dançavam e sentiu-se bem. Sentiu-se aliviada. Ela e a música tornaram-me um só. Dois mundos num só mundo, num só corpo. Gestos e movimentos no clímax do ritmo. Os braços que lhe percorriam o corpo. As mãos que atravessavam o volume dos seus cabelos. Tudo tão sentido, emotivo, intenso. Ela chegou e a música percorreu-lhe cada músculo, cada veia e cada sentido. Ela estava bem agora. Estava bem porque chegou.
Ana Paixão
Ela chegou. Primeiro um fechar de olhos, depois um mexer suave do corpo. Cruzou um olhar cúmplice com os amigos que também dançavam e sentiu-se bem. Sentiu-se aliviada. Ela e a música tornaram-me um só. Dois mundos num só mundo, num só corpo. Gestos e movimentos no clímax do ritmo. Os braços que lhe percorriam o corpo. As mãos que atravessavam o volume dos seus cabelos. Tudo tão sentido, emotivo, intenso. Ela chegou e a música percorreu-lhe cada músculo, cada veia e cada sentido. Ela estava bem agora. Estava bem porque chegou.
Há regressos inesquecíveis!
Ana Paixão
Desabafo com um toque irritado

De que te servem as boas notas se deixas a vida arrumada nas estantes?
Eu nunca tive um 20, não sou uma aluna aplicada e odeio estudar, sinceramente. Os meus trabalhos de casa geralmente são copiados ou feitos dez minutos antes da aula começar, faço cábulas, riu-me, falo e baldo-me. Sou o contrário de ti, basicamente, mas tu és o contrário de toda a gente... Eu também sei estudar para um teste quando é preciso e sei estar atenta nas aulas. Eu sei ser responsável às vezes, já viste? Já me deitei às três da manhã porque tinha trabalhos para fazer e já abdiquei do belo cafézinho para estudar, acreditas ou não. Mas ao menos vivo! Daqui a uns anos, quando fores pai, que tens para contar aos teus filhos? Olhem, o pai na vossa idade não tinha amigos e não saía, mas tinha excelentes notas. IUPY! Agora a sério, és feliz com isso?
Tu nunca fugiste de casa e desconheces a adrenalina de roubar qualquer coisa numa loja. Nunca sentiste o medo divertido por chegar a casa às seis da manhã quando devias ter chegado à 1h. Os teus Sábados à noite são passados em casa, não sabes o que é estar bêbado, não sabes o que é andar à porrada, não sabes o que é chegar a casa cansado de dançar. Não sabes o que é apanhar boleia de um camionista velho. Não sabes!
Queres que te diga mais? Eu tenho consciência de que se me aplicasse, teria excelentes notas porque eu não sou burra nem limitada, simplesmente sou desinteressada! Não tenho negativas nem tenho 20s. Sou uma aluna mediana, como tanta gente. Interesso-me mais pelo calor de viver, pela adrenalina de um raspanete e pelo lado cómico de um castigo. Adoro cantar num Karaoke, adoro conversar com os professores fora das aulas, adoro arriscar!
Tu vives em função da escola, e com 16 anos a escola tem que ser uma prioridade mas a diversão também. Não precisas de ser rebelde e dizer que a escola não presta, porque presta. Sem estudos não vou a lado nenhum, achas que não sei isso? Dou-te toda a razão:
Preciso de estudar para ser alguém.
Mas tu precisas de te divertir para seres alguém FELIZ!
Mas tu precisas de te divertir para seres alguém FELIZ!
Ana Paixão
Quando voltar

Olha, deixa a nossa roupa espalhada pelo chão para eu relembrar esta noite quando voltar. Sempre adorei esse teu casaco, fica-te bem. Não arrumes os sapatos, que expulsamos dos nossos pés com tanto fervor, nem tires o teu maço de tabaco da mesa de cabeceira. Vou sair mas não levo as chaves, elas ficam bem ao lado da nossa moldura. Quando voltar quero ver esses lençóis enrugados e essa colcha horrível ainda caída, foi parar ao chão, a coitada, e no chão vai ficar. O meu elástico do cabelo ficou perto do meu verniz, aquele verniz que tu odeias e eu adoro. São gostos, e eu gostei desta noite. Tenho a sensação que até de ti eu gosto.
Quando eu voltar e entrar por aquela porta espero ver-te no mesmo sítio. Fazemos assim: Eu vou embora e tu ficas aí, exactamente nesse sítio, com esse ar de sono e esse cabelo despenteado. Ficas? Deixa estar a garrafa de água destapada e não apanhes a mala que deixei cair ontem à noite.
Quando voltar não tires a tua mão do meu cabelo. Continua a respirar contra o meu pescoço e volta a sussurrar-me ao ouvido. Fala-me de coisas, fala-me das tuas coisas. Sei que tens o hábito de ver as horas no telemóvel, mas não o faças hoje. Ele fica bem como está, mesmo ao lado das minhas pastilhas de pêssego. Quando voltar quero-te ver outra vez. Quando voltar quero-te ouvir outra vez.
Quando voltar quero-te. Outra vez!
Ana Paixão
Amargas!
Aluga-se corpo
O vento acabava com toda a paz da noite e gelava-lhe o peito, as pernas, o corpo. Seios firmes, tapados com um top fino e fácil de despir. Decote atrevido, como faz parte. Saia de cabedal que lhe apertava as nádegas e deixava umas pernas enormes e depiladas à vista. As típicas botas pretas que lhe davam a altura, a postura e a elegância que lhe faltavam. Noite fria esta. O desejo de um carro. O desejo de um corpo. O batom carregado nos seus lábios carnudos e o cabelo esticado e solto. A noite já tinha caído sobre a cidade, e acima de tudo, tinha caído sobre ela. Com a noite, tinha vindo também uma enorme e horrível sensação de vazio. Instalou-se nos seus lábios que beijavam outros lábios, na sua língua que tocava noutras línguas e até no seu olhar, que tantas vezes fingia estar preso a outro. Esse vazio nojento entranhava-se também nas suas mãos. As mesmas mãos que percorriam o corpo de outrem. As mesmas mãos que alimentavam um menino de três anos que, por aquela hora, já dormia. As mesmas mãos que faziam o que fosse preciso só para satisfazer o cliente. Por prazer não, por dinheiro. Um vazio que, inesperadamente, chegou também ao seu coração. Alojara-se lá, o cabrão, e crescia a cada madrugada.Ali não havia espaço para condições, não era ela que ditava as regras do jogo e se alguém queria, ela fazia. Ponto final. Uma grande actriz ela, sim, disso não tenham dúvidas. Ela que gritasse, que gemesse, que ficasse deitada ou não...estava ali para satisfazer fantasias esquecendo-se que não era uma fada. Fora uma, outrora, nos tempos em que não ouvia os pais a discutir nem sabia que os inchaços no corpo da mãe não eram de quedas. No tempo em que nunca tinha ouvido falar de sexo e dinheiro.
A noite continuava a gelar-lhe o corpo até um carro ter abrandado junto a ela. Homem com os seus cinquenta e tais anos, óculos, barba feita e perfume estonteante.
-Entras?
-Entro querido...
E seguiram os dois. Ela entrou no carro e ele entrou dentro dela entre respirações ofegantes, pedidos e suor. O corpo dela envolvera-se com o dele ali mesmo, num carro de dois lugares com janelas embaciadas. Nada de nomes, nada de conversas íntimas. Apenas a saliva dos dois e os orgasmos fingidos dela.
Quando a manhã chegou, o carro partiu deixando apenas notas e mais um pedaço de vazio no coração dela. Nem um poro daquela pele conseguiu escapar ao uso e à dor. Foi mais uma noite com mais um desconhecido. Estava cansada, esgotada...
...e hoje o menino fica a dormir e ela volta para o vento frio, e pior, para o irremediável vazio que está a sua vida.
Ana Paixão
A pitice de hoje em dia

Onze anos de existência em cima de uns saltos altos de 8 centímetros; poros asfixiados com dois dedos de base em cima; olhos escondidos atrás de uma sombra verde; pestanas pastosas de rimel; unhas pintadas de amarelo fluorescente; fotos com poses pseudo-sensuais no hi5; soutiens à mostra; lista de gajos bons para conhecer; PoRtUgUeX xEiO dE ErRuS; A mania dos K's; As gandas bebedeiras com cervejas sem álcool; Os penteados à Morangos com Açúcar. É isto!, onze anos de idade e já estiveram com 10 rapazes, não sabem o que é um orgasmo mas já falam em sexo...não sabem o que é um preservativo, por isso não usam; maquilham-se para ir para a escola, armam-se em mulheres, mas de mulher não têm nada. Isto é ridículo! Começaram a fumar porque os outros fumavam; discutem com os pais porque acham rebelde; fazem doze anos, quinze, vinte e dois. Crescem em tamanho mas não em mentalidade. Crescem em peso mas não em inteligência. Crescem em vivência mas não em responsabilidade. Crescem assim, nesta asneira constante. Nesta asneira de mundo.
Ana Paixão
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Amor, levantei-me!
Amor, levantei-me! Já não estou sentada nas escadinhas do jardim à tua espera.Preferia que me tivesses derrotado no meio do teu orgulho e teimosia, mas não o fizeste. Mentiste-me, amor, e a minha mãe ensinou-me que mentir é feio! Quem me dera nunca ter escutado o vento e nunca ter visto a verdade no teu olhar!
Sim, levantei-me! As escadinhas do jardim já não têm lá ninguém sentado, de olhar perdido e rosto triste. Já não te quero, fazes-me mal... Sim amor, fazes-me mal! Foi uma paixão tão louca, mas eu não me arrependo, amor, assim da próxima vez já não acredito nas pessoas. (Eu cada vez acredito menos nas pessoas, sabes...)
Ainda te sinto aqui, mas mesmo assim, levantei-me! Estou feliz por ter deixado as escadinhas do jardim e ter caminhado.
Sabes uma coisa, amor?! Esperava mais de ti. Esperava muito mais de ti.
Será impressão minha, ou não vales mesmo nada?!
Olha, amor, se algum dia me vires na rua, ou mesmo perto das escadinhas do jardim, não dispares a tua voz nos meus ouvidos nem lances o teu olhar sobre o meu. Repulsas-me e, no entanto, continuas a mexer qualquer coisa cá dentro!Não sou falsa e não te desejo nada de bom. Não quero que sejas feliz nem que sigas o teu caminho. Só quero que haja alguém, um dia, que te mate por dentro como tu me mataste. Quero que um dia sofras o triplo do que eu sofri por ti. Quero-te mal, amor, desculpa, mas tu também me fizeste mal e eu sou vingativa.
Ana Paixão
Subi
...Então uns foram apanhar o metro, outros o táxi, e eu?! Eu subi até ao 2º piso e voltei para o meu quarto.Subi com a tristeza do final do dia a apoderar-se de mim, como é habito. Ou melhor, tristeza não...vazio. Um vazio petrificante no peito pela chegada das oito horas da noite. A televisão que não dá; as visitas que abalaram; a cama desfeita à minha espera e uns comprimidos à cabeceira. Um silêncio triste no corredor. As dores de uma companheira de quarto; as conversas maçadoras de outra; e eu. Subi as escadas depois de uma dia em que quase me esqueci onde estava. Foi bom, foi óptimo. Subi e pensei na Maria que estava triste por mim. Subi e senti saudades deles. Subi e desejei que eles voltassem. Subi, tinha que ser assim...
...e quando voltei para aqui eles já tinham ido embora, de facto,
mas não me senti sozinha.
mas não me senti sozinha.
Tenho umas saudades doidas de dançar,
não me apetece comer
não me apetece passear.
Só me apetece dançar.
Ana Paixão
não me apetece comer
não me apetece passear.
Só me apetece dançar.
Aqui estamos todos no mesmo barco
Aqui todos me falam bem quando ando pelos corredores. Dão-me um Bom dia Ana!, já com o meu nome decorado. Quando entram pelo quarto e vêem os meus olhos inchados preferem não dizer nada...iam dizer o quê? Aqui todos choram do mesmo e todos percebem o meu choro. Não se trata de mariquice, trata-se de dor! Dor psicológica, mas acima de tudo, dor física.
Aqui, sim, estamos todos no mesmo barco. Quando a hora das visitas acaba e este lugar fica em silêncio, falamos. Falamos sobre os motivos de aqui estarmos, falamos sobre a nossa casa, família, amigos. Falamos porque percebemos o que mais ninguém percebe. Mais ninguém sente esta dor de acordar, fazer exames, olhar para a comida sem vontade da comer, a dor vem aí outra vez, merda para isto!, as saudades de casa, o mentir inocente aos amigos, os constantes Estás bem? Estás melhor? Já tomaste os comprimidos?, e também as tentativas por vezes falhadas de ar feliz e tranquilo quando falamos ao telefone: Então Aninhas, como estás hoje? Aahh está descansada, eu estou bem e já me sinto melhorzinha. Sim eu sei. Sim obrigada. Sim estou. Sim a tudo. Sim uma merda, está tudo mal neste barco. Este barco é profundamente injusto, desgastante e doloroso.
Tenho saudades daqueles tempos em que chorava por rapazes, juro que tenho! Eram dores que eu pensava não suportar, que faziam o meu mundo acabar. Eram os Mas eu gosto tanto dele! misturados em lágrimas típicas da idade... mas as lágrimas quentes que me percorrem hoje o rosto já não são típicas da idade. Eu sei lá já o que é típico da idade...
...Sei lá o que a vida quer de mim com isto tudo. Testar-me? Bem, aqui estou eu à dois anos nisto! Venha mais que eu aguento, oh vida, pior que este barco em que me meteste é impossível.
Ana Paixão
Personalidade
Seja ela boa ou má, goste dela muito ou pouco...está definida!
Não suporto gente que se rege pela opinião dos outros nem tão pouco admiro a falta de originalidade. Visto-me como quero, digo o que quero e a quem quero! - é aqui que cresce a maior admiração que tenho por mim mesma.
Sinceridade é uma palavra bonita mas difícil de cumprir. Essa blusa é horrível! Não esperem que vos minta para ser simpática. Eu acredito que a dureza da frontalidade é mais leve que o peso de uma mentira.
"(...) Então conseguiste dizer-me aquilo
que todos achavam e não tinham
coragem para dizer"
Não suporto gente que se rege pela opinião dos outros nem tão pouco admiro a falta de originalidade. Visto-me como quero, digo o que quero e a quem quero! - é aqui que cresce a maior admiração que tenho por mim mesma.
Sinceridade é uma palavra bonita mas difícil de cumprir. Essa blusa é horrível! Não esperem que vos minta para ser simpática. Eu acredito que a dureza da frontalidade é mais leve que o peso de uma mentira.
"(...) Então conseguiste dizer-me aquilo
que todos achavam e não tinham
coragem para dizer"
Ana Paixão
De volta
Ainda tenho a mala por desfazer.
A última semana foi inesquecível: muita praia, muito bronze, muita música, muita alegria! Os dias voaram, rápidos e imparáveis, mas eu senti-os. Senti cada gargalhada e cada barraca que demos, senti cada gozo e cada banho no mar gelado. Acabaram-se as manhãs de preguiça, as tardes de praia, as 200 fotos por dia, o slide and splash com os nossos gritos e gargalhadas, as noites de pura maluqueira.
Tinha saudades do meu quarto
e do cheiro da minha casa.
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